sábado, fevereiro 08, 2014
Como todos os dias de um passado distante
As calçadas movimentadas pareciam vazias enquanto ele andava, olhando para seus próprios pés. Não porque tinha a importância de um rei ou algum soberano e as pessoas abriam caminho para sua passagem, e sim porque ele não se importava com quem estava ao seu redor. Era quase impossível contar em quanta gente ele tinha esbarrado, e recebera um xingamento em resposta, mas ele não ligava, e mal ouvia o que lhe era dito ou sentia os empurrões que recebia. Ele simplesmente andava, sem ligar para mais nada.
Era irônico como tudo mudava de acordo com seu humor, ainda que talvez seja assim com todos. Quando se está feliz, o mundo parece lhe sorrir de volta, mas quando se está de mau humor, tudo que se recebe em troca são xingamentos e esbarrões numa calçada cheia em uma cidade qualquer.
No bolso de seu sobretudo, o papel e a caneta pesavam mais do que pesaria uma arma. Com dificuldade, saiu do meio da pequena multidão que circulava na rua, e entrou em um café. Havia frequentado aquele local poucas vezes, e agora que voltara depois de tanto tempo, a nostalgia lhe atingia como um vento cortante do inverno.
Ainda não tinha se acostumado a não vê-la sentada ali, na mesma mesa de sempre. Se fechasse os olhos, ou ao menos se concentrasse um pouco mais, sabia que poderia enxergá-la, com os cabelos acaju soltos sobre os ombros, e os óculos com armação azul e quadrada refletindo a tela do notebook.
Pediu um cappuccino, com dose extra de açúcar, e mesmo depois da bebida já estar à sua frente, juntamente do papel e da caneta, ele parecia esperar algo que jamais chegaria. Esfregou os olhos, cansados. Sentia-a tão perto de si que quase doía.
Depois de respirar fundo, começou a escrever, quase entrando numa espécie de transe. Escrevia sobre tudo que pudesse pensar a respeito dela, mesmo aquilo que nunca diria se estivessem frente a frente. E, bem, talvez se o tivesse dito, não precisaria escrever agora, porque talvez, se tivesse dito tudo o que pensava, ela não tivesse ido embora.
O tempo parecia ter corrido mais depressa que o normal enquanto ele estava preso em seu mundo particular de memórias, e quando finalmente terminou de escrever, recostou-se na cadeira, suspirando. Ao reparar no copo ainda intocado de cappuccino, riu suavemente, percebendo como tudo aquilo era irônico. Havia acabado ali, bem onde sua história havia começado, onde havia conhecido-a. Justo ela, que sempre teve mais medo de mudanças do que ele sempre teria.
Ah, se soubesse que, se a ajudasse a superar os medos, ela fugiria dele, assim, sem pena! Ele confessaria, sem um pingo de pena, que não a ajudaria.
Uma vez lhe disseram que cílios, estrelas cadentes e velas de aniversário realizavam pedidos, bem como cartas atiradas ao vento, e ele acreditara, como também acreditara que o mundo era um lugar bom. Há muito ele deixara de acreditar em tudo isso, e até se acostumou a viver numa versão mais escura do mundo que criara pra si mesmo. O problema é que agora chegara ao ponto de voltar a acreditar em tudo isso, como última esperança que a fizesse voltar.
Mas como poderia atirar uma carta ao vento com a chuva que caía lá fora? Não poderia. Talvez seja um sinal de que não devo fazer isso, ele pensou, olhando os garranchos escritos rapidamente no papel. Talvez, só talvez, ele devesse seguir seus próprios conselhos e vencer o medo que um dia também fora dela. Tudo que precisava fazer era aceitar que ela tinha ido embora. Rotina não existia mais no vocabulário dela, e precisava voltar a sumir do dele. Nada acontece duas vezes da mesma maneira, nada voltaria a ser do mesmo jeito como todos os dias de um passado distante.
quinta-feira, fevereiro 06, 2014
Aprendiz da solidão
Os primeiros raios de sol passavam pela janela do quarto, e iluminavam de forma suave o rosto do jovem adormecido. Nora mantinha-se afastada da luz, sentada numa poltrona no canto do quarto, com os pés sobre o assento e abraçada aos próprios joelhos. Victor acordaria logo.
Ela suspirou de cansaço, embora não tivesse sono. Passara a noite toda acordada, mas ainda assim não sentia um pingo de sono que fosse. Tudo bem, era certo que nenhum dos dois tinha ido dormir cedo, mas do mesmo jeito, as horas de sono perdidas não foram suficientes para fazê-la chegar a alguma conclusão.
Aquilo estava acabando com ela. Estava acostumada a contar com a ajuda de Victor para resolver qualquer problema que fosse, mas o que deveria fazer uma vez que o problema era o próprio Victor? Ela nem mesmo havia percebido quando as coisas começaram a mudar e se complicar tanto, mas aqui estava ela.
A verdade era que, enquanto muitos diziam estar entre a cruz e a espada quando numa situação difícil, Nora sabia que estava entre duas espadas com lâminas afiadas; não importa o movimento que fizesse, sairia machucada.
Na primeira das opções, machucaria Victor depois de tantas juras de que ficariam juntos, e magoá-lo doía tanto nela quanto nele, apesar de tudo. Na segunda opção, ele estaria feliz, mas ela não sabia se poderia viver ignorando seus próprios sentimentos. Mas, de qualquer forma, já estava detestando a si mesma naquele momento.
Nunca se sentira tão sozinha na presença de outra pessoa, ainda mais de alguém que outrora a conhecia tão bem quanto ela mesma. Nora não sabia quando as coisas tinham mudado, mas ela simplesmente não podia mais suportar aquilo. Não podia passar o resto de seus dias fingindo que tudo estava bem, mas como poderia criar coragem para falar tudo o que pensava?
Enquanto não chegava a uma conclusão, empurrava os problemas para algum canto escuro da mente, onde talvez pudesse esquecê-los. Um pouco como o que fazia agora, encolhida no canto mais escuro do quarto, com esperanças de ser esquecida também.
Ela suspirou baixo, com cuidado para não acordá-lo. Se odiava por deixá-lo de lado desse jeito, como um problema qualquer, e nem mesmo deixá-lo perceber isso. Com cuidado e silêncio redobrados, levantou-se da poltrona. O sol estava mais alto agora.
Sentindo pela primeira vez que estar sozinha a machucaria menos do que estar com Victor, Nora saiu. Sem saber quando voltaria, ou mesmo se voltaria. Só sabia que se sentia menos sufocada nesse momento do que no último mês. A solidão a dois estava matando-a, pouco a pouco.
domingo, janeiro 26, 2014
Canção do Mar
Wish my mother could hear it
The sea is my song
For a moment, just a moment
I belong
Como Ismália que um dia quis a lua
Ariana queria o mar
Não sabia como nem porquê
Apenas sabia
Que aquele era seu lar
Para o mundo da qual vinha
Não pretendia revir
Apenas fechou os olhos
E até no fundo de sua alma
A água pode sentir
O ar que lhe faltava
Jamais voltaria
E enquanto a distância aumentava
A respiração diminuía
A duvida a cutucava
Bem no fundo da mente
Parecia tão errado
O sol a incomodava
Era tão quente!
O azul do oceano
Agora era negrume
A canção aumentava o volume
E seus ouvidos aumentavam a pressão
Se o sol lhe feria
E o mar a matava
Onde pertencia, então?
domingo, janeiro 05, 2014
We are young
Give me a second I
I need to get my story straight
My friends are in the bathroom
Getting higher than the empire state
A música ecoava a todo volume na casa lotada. A regra dos anfitriões era clara: não vão para o segundo andar. Mas é claro que não se pode controlar uma casa cheia de adolescentes e sem a supervisão de um adulto.
De todas as festas que já haviam sido dadas naquela casa, aquela estava longe de ser a pior, mas isso não é o mesmo que ser considerada uma festa devidamente controlada, calma e puritana. Acredito, se permitem minha humilde opinião, que qualquer pessoa com o mínimo de senso de limite teria se horrorizado diante de toda a cena. É sempre surpreendente o que adolescentes são capazes de fazer quando em estado de êxtase, e a felicidade era presente em todos os cômodos do sobrado. Ou quase todos.
Ela estava trancada no único quarto não ocupado de toda a casa, grande, decorado com cores claras e uma cama de casal. Provavelmente era o quarto dos pais dos dois jovens que davam a festa naquele exato momento. Ela não fazia ideia de como ambos explicariam o estrago que provavelmente sobraria depois, mas eles encontrariam algo. Pessoas de mente forte são boas fazendo isso, livrando-se bem de situações das quais outras pessoas sairiam arrependidas e envergonhadas.
Ultimamente, Juliet Reed andava pensando bastante nas outras pessoas. O suficiente para que tentasse, uma última vez, fazer amigos, mas sempre fora uma negação para isso. Durante toda a vida, ela nunca conseguiu entender a mentalidade de pessoas da sua idade. Tinha alma de velho, era o que diziam, mas dessa vez havia conseguido manter algumas pessoas próximas por um tempo consideravelmente longo. É óbvio que isso não é o mesmo que se sentir inclusa. Não importa o quanto tentasse, jamais conseguiria se enturmar, fosse entre os jovens ou entre os adultos.
Sabia que não devia ter ido. Agora estava sozinha, mais uma vez. Seus “amigos” deviam estar em algum outro canto do duplex, bebendo, fumando ou fazendo qualquer outra coisa da qual ela nunca se orgulharia de dizer ter participado. Porque, afinal, ela nunca participara. Esteve sozinha naquele quarto por tempo suficiente para revirar todo o cômodo. Era uma suíte bonita, com uma boa visão do jardim. Aquele lugar não era para ela. Talvez só devesse ir embora. Era algo que ela sempre pensara, desde quando podia se lembrar. Afinal, viver era para os felizes, não era? Ela nem mesmo sabia o que era felicidade! Talvez estivesse entre os cigarros fumados pelos presentes na festa, talvez estivesse no fundo das garrafas de bebida. Talvez não estivesse em lugar algum. Talvez estivesse no ar e só pudesse ser sentida pelos que sabiam apreciar os pequenos detalhes, mas ela se sentia tão sufocada…
Abriu a janela, mas não ajudou. O som ecoava longe, agora. Algo sobre ser jovem. Irônico, se fosse considerado quem ela era. Sentou-se no parapeito, e isso tampouco a ajudou a respirar melhor. Mas ela não se importou, pois nunca mais lhe diriam que ela não pertencia àquele lugar, e nunca mais ela se sentiria deslocada. Juliet podia ter a alma de uma pessoa idosa, mas sua aparência era de alguém jovem. E se permanecesse assim, talvez fosse aceita, ou menos estaria presente na memória das pessoas. Seria jovem para sempre. Ela pulou.
So if by the time the bar closes
And you feel like falling down
I'll carry you home tonight
quinta-feira, janeiro 02, 2014
This is Home
A porta do carro foi batida com força, logo após a adolescente sair, pisando duro e exalando raiva. O pai saiu do lado do motorista logo após, com uma mistura de ira e decepção. Nenhum deles me viu. Nenhum deles me sentiu. Não até agora.
Ele gritou mais alguma coisa para ela. Acho que vieram todo o caminho para casa aos berros. A essa altura, eu podia ver o traço brilhante que as lágrimas deixaram no rosto dela. Nenhum dos dois lembrou-se de pegar a mala da garota, jogada de qualquer jeito no banco traseiro. E nem eu lembrei, na verdade. Estava muito ocupado tentando identificar a causa das lágrimas. Raiva? Frustração? Ou a clássica tristeza? Ou, vai ver, eu sou o causador.
Oh, perdoe minha falta de educação, não me apresentei! Eu sou o Amor. Imagino que, como várias outras pessoas, você imaginava que uma figura feminina representasse meu sentimento. E é, às vezes. Você sabe, sentimentos podem muito bem assumir a forma que bem desejam, mas se assumíssemos nossas verdadeiras formas, com certeza não poderíamos ser discretos como devemos, em certos casos, e sob forma humana, seríamos tão velhos quanto possível. E que credibilidade com as pessoas teríamos, assim? As pessoas tem o péssimo hábito de não valorizar o que é velho, que tem histórias para contar.
Nesse momento, não passo de um adolescente, assim como ela. Nem mesmo sei o seu nome. Tenho ordens de não me envolver demais nas histórias que crio, mas é impossível, às vezes. Ainda lembro-me bem do desastre em que terminou Romeu e Julieta, ou mesmo Cyrano e Roxane. Acho que essa se chama Sofia. Ainda com o pai gritando coisas horríveis que eu não me importava em entender, ela olhou para o outro lado da rua. Bem para onde eu estava. Certamente não me reconheceu, e talvez tenha pensado que sou apenas um parente ou amigo de seu vizinho. Ela não me reconheceu, mas eu entendi, finalmente. Acho que as lágrimas eram de tristeza, afinal.
Ela entrou em casa. Casa. Palavra estranha diante toda essa situação. Veja bem, eu sei que todos me veem como O Mais Bonito dos Sentimentos, ou ainda O Sentimento que Move o Mundo. Mas as coisas não funcionam assim. É claro que também não sou perigoso, e tampouco obrigo as pessoas a fazerem coisas que quero que façam, mas posso influenciá-las. E essa menina, Sofia, foi influenciada por mim. Eu assumo a culpa. Mas, em minha defesa, a ideia parecia bastante aceitável na mente sonhadora de menina de 16 anos dela. Eu a ceguei, mesmo sem querer. Juntara a mesada durante meses. Arrumara algumas poucas roupas dentro de uma mala pequena, e estava pronta para assumir as responsabilidades como adulta e viveria com o namorado.
Mesmo para mim soa um plano burro e precipitado. Desculpem a grosseria, mas é como vejo. E é claro que deu errado. Por motivos como esses, por pessoas que confiam tão cegamente em mim que perdem a razão, é que perco também minha credibilidade. Não sou um sentimento vão, e grande parte das vezes sou racional também, ao contrário do que sei que imaginam por aí.
Ao menos tudo acabou bem, mesmo que a fugitiva não seja capaz de entender. Ainda é jovem demais para entender minhas motivações, e onde me encontrar. Ela acha que estou apenas onde seu amado está, assim como muitas menininhas apaixonadas por aí. É uma pena que não posso me comunicar diretamente com elas e lhes contar que não é assim que funciona. Eu estou em todo lugar, assim como o ar que ela respira, pois sou como a terra e o céu.
Ela vai entender um dia, eu sei disso. Enquanto não entende, acho que posso contar com a sensatez de seus pais para mantê-la em casa, segura e a salvo. E, no final das contas, ela conseguiu o que queria também. Queria estar onde o amor está, e embora ela esteja longe de onde sua paixão está, eu estou aqui. Quando a raiva passar, talvez ela perceba isso por si mesma, e se sinta em casa novamente.
domingo, dezembro 29, 2013
God save the Queen
A escova desliza pela cascata preta que são seus cabelos. O batom vermelho retoca uma imperfeição inexistente nos lábios fartos. O porte de princesa não lhe diz respeito, mas poderia se passar por uma rainha facilmente. O luxo é parte de você. E o luxo jamais se mistura com o lixo.
E enquanto eu te escrevo essas palavras, não me preocupo com o quão indelicado eu sou. Não me importo com possíveis erros de gramática ou palavras com duplo sentido. Nada me preocupa pois sei que o que mais te enoja não é o que lhe digo indiretamente, mas o simples fato de que, apesar de viver em seu próprio mundo onde pessoas são súditos e sua pessoa é a maior autoridade, nada deveria manchar sua imaculada perfeição. E é claro que tocar em um papel de carta antes tocado por um simples plebeu te torna tão suja quanto eu sou.
Talvez eu esteja errado. Talvez você não leia com uma expressão de nojo e o estômago revirado. Talvez nem mesmo demonstre algum abalo em seu coração frio como gelo. Talvez nem mesmo leia até o fim. Isso me dá a liberdade de escrever como bem entender, não é? É o que eu farei, de qualquer jeito.
Diga-me, qual o propósito de agir assim? Sempre vi a pobreza de espírito como o pior dos pecados, mas nunca havia percebido como o excesso também é nocivo à saúde espiritual. Nunca havia percebido, mas também nunca havia notado teu jeito de imperatriz de Lugar Nenhum. Diga-me, imperatriz, qual seu propósito? Faz tudo como se alguém te contemplasse, pequena Narcisa que jamais amou. Sei que jamais amou, pois se amasse, não faria o que faz. Não ama nem a si mesma. Ora essa, se ao menos conseguisse admirar seu próprio reflexo sem perceber algum defeito a ser consertado, poderia perceber a beleza da imperfeição.
Apenas pare. Pare por alguns poucos minutos, e olhe ao redor. Então, diga-me mais uma vez, Vossa Majestade, como andam seus propósitos? Vale a pena satisfazer seus caprichos dignos de uma criança que cresceu cedo demais? Olhe ao redor e repare não só no que você perde de nós, súditos de uma rainha jamais coroada, mas também no que você perde de si mesma. Vossa Majestade possui alguma qualidade? Se possui, por favor, deixe-me vê-la! Pois assim, a olho nu, não posso enxergar nenhuma. Apenas o excesso de luxúria, que lhe cai melhor como pecado.
Não acredito que tudo tenha sido lido até aqui. Se foi, agradeço o tempo que me foi dedicado, e peço desculpas pelo incômodo provocado. Afinal de contas, sei que plebe e realeza não se misturam. Talvez algum dia as coisas mudem, mas não começará por mim. Aproveite a chance enquanto pode, e aproveite seus privilégios enquanto lhe são oferecidos, ainda que pela sua própria mente sedenta de poder e atenção.
Deus salve a rainha.
segunda-feira, dezembro 23, 2013
A Origem da Sereia
(com participação de M. Deméter.)
O barulho na superfície continuava com o mesmo nível de irritação que sempre ocorria naquela época. Um zunzunzum sem fim que apenas humanos eram capazes de fazer e que causava uma desordem mesmo lá no início das profundezas do mar.
Jullie sabia muito bem que não deveria se aproximar daquela raça barulhenta e porcalhona, mas o barulho era tanto que a vontade de deixar-se roçar nas pernas de um ou nos pés de outro era praticamente incontrolável. Ora, ela tinha o direito de ferir ao menos aqueles que ousavam ir fundo demais e importunar seu habitat natural. Aquela era sua casa, não deles.
Ela entendia sem problemas que eles usassem o mar como fonte de diversão durante os dias de férias. Mas ora essa, era noite de Natal! Para os humanos, isso queria dizer ficar em suas casas, com suas famílias, não? Pois então, que fizessem isso e deixassem tanto ela como os outros seres marinhos em paz!
Stella olhava toda a cena com reprovação. Não concordava com a ação dos humanos, mas não concordava com Jullie também. Os humanos eram perigosos. O melhor a fazer seria deixá-los de lado e ir mais fundo no oceano, onde eles não seriam capazes de chegar, e ficar lá até que eles fossem embora.
E era exatamente isso que ela tentava fazer, afinal, era uma estrela-do-mar e o que estrelas-do-mar podem contra os destruidores humanos da natureza? Ela poderia ser pisoteada, chutada, arremessada, ou ainda pior, poderia ficar presa em alguma daquelas coisas brancas que mais pareciam redes sem furos para peixes.
Ainda assim, como poderia ir para a segurança do calmo fundo do mar e deixar sua amiga lá? Jullie era uma água-viva e conseguia se defender, mas suas defesas também poderiam ser a causa de sua morte.
Ela ponderou durante um bom tempo. No geral, mantinha-se longe de humanos e o mais longe possível da superfície. Se permanecesse muito tempo longe da água, morreria, e sabia disso. Mas Jullie não parecia com tanto medo, ou ao menos pensava que o risco valia à pena.
Por fim, decidiu se aproximar, apenas o suficiente. Convenceria Jullie a voltar consigo para o fundo do mar, onde esperariam até que tudo se acalmasse. Mas nada se acalmou, e ela nem mesmo teve a chance de chegar perto.
O zunzunzum de antes foi incrementado pelo barulho da queda, e a primeira coisa que Stella conseguiu visualizar foi uma massa loira que acreditava se chamar cabelo. Depois vieram os braços e pernas cumpridos se debatendo de um lado para o outro e causando reviravolta no mar, impedindo o avanço da estrela.
A água-viva desapareceu de sua visão por alguns segundos, enquanto seus braços mantinham seu equilíbrio no agitar do mar, impedindo-a de se afastar muito ou virar de pernas pro ar.
Jullie sentiu as ondas antes de ver a menina loira, mas isso não impediu que alguns dedos tocassem sua membrana por um instante, fazendo a humana se debater ainda mais. Por ela, a menina continuaria onde estava agora: abaixo da superfície, tentando desesperadamente subir e respirar.
Humanos não costumavam se importar com as criaturas do mar que eles, por vezes, matavam ou tiravam de seu lar para criar em ambientes artificiais. Por que, então, criaturas marinhas deveriam se importar com humanos?
Stella, mesmo que quisesse, não poderia levá-la para a superfície. Não tinha muito que pudesse fazer além de ficar ali e assisti-la se afogar. Entretanto, seu desejo era exatamente o contrário ao da água-viva, queria impedir que a humana se perdesse eternamente entre as correntes marítimas.
Talvez fosse exatamente por isso que ela era uma estrela inofensiva enquanto sua amiga era uma ardente água-viva, Jullie tinha o instinto predatório que Stella nunca teria, instinto esse que várias vezes já salvara sua vida, mas que várias outras a metera em grandes confusões.
Independente do que sua amiga pensasse, ela não deixaria que aquela menina morresse. Afinal, a garota não tinha culpa de pertencer à raça dos barulhentos quebradores de conchas.
Resolveu, então, avisar a Jullie o que resolvera fazer. Avisaria a eles. Era uma medida extrema, mas com ou sem o apoio da amiga sabia que era a única solução, não ficaria parada observando uma humana sofrer daquele jeito. Além do mais, aquilo já havia sido feito antes, qual o problema em fazer mais uma vez?
Concentrou-se em tentar se comunicar com Jullie. Não poderia avisar com palavras como os humanos faziam, é claro, era só uma estrela-do-mar, mas poderia avisá-la através de suas emoções, com uma espécie de imagem mental.
A resposta veio inicialmente em forma de desespero e inquietação, como esperado. A água-viva pouco se importava com vida e morte dos humanos. Mas mesmo ela aos poucos, com os argumentos apresentados por Stella, foi transmitindo um sentimento de compreensão e aceitação, afinal, do pouco que as duas ouviram falar deles, sabiam que salvavam apenas os merecedores de tal dádiva.
A garota loira aos poucos ia afundando, algumas bolhas cada vez mais raras escapando por seus lábios. Após decidirem contatá-los, estrela e água-viva precisavam agir rapidamente.
Jullie se prontificou a trazê-los com toda a força de seus pensamentos e distanciou-se um pouco da menina balançado seu corpo o mais rápido que podia. Não era possível que ouvissem com toda aquela agitação que a humana proporcionava.
Eles não demoraram muito. Se a garota podia ver alguma coisa debaixo d'água, então certamente achava que já estava perdendo o juízo. Tinham idades aparentemente diferentes, mas todos possuíam uma beleza incomparável. Desde as feições humanas extremamente belas até a ponta de suas barbatanas.
O grupo era composto por sereias e tritões, cada qual com escamas de cores diferentes, bem como seus cabelos e olhos. Eles avaliaram a situação por um momento, que parecia breve e ao mesmo tempo eterno.
O tempo da humana estava acabando. Por fim, um sentimento de compaixão e bondade espalhou-se, e foi como se isso fosse o suficiente para acalmar tudo ao redor de todos eles.
Mesmo que a humana tivesse visto alguma coisa, já não importava mais. Logo ela deixaria sua humanidade para trás.
As sereias foram as primeiras no ritual, colocaram-se ao redor da garota quase inconsciente e, antes de darem as mãos, começaram a cantar. Os tritões seguiram os movimentos fazendo um circulo externo e mantendo os lábios fechados.
Stella e Jullie nunca tinham visto o processo antes e o canto as deixou maravilhadas. Não era como o som dos humanos. As vozes se propagavam na água com uma leveza aparentemente impossível e, apesar de não soarem completamente claras, a intenção era óbvia e palavras não eram necessárias.
Os tritões, por sua vez, mantinham uma base acústica ainda mais abafada, o timbre grosso soando por trás dos lábios fechados, apenas pelo tremor de suas cordas vocais.
Por fim, um dos tritões se aproximou, ficando no meio do círculo, junto com a garota loira. Não emitia qualquer tipo de som, mas seu olhar era concentrado. Ele fechou os olhos, e levantou a mão em direção a testa da menina. Tocou-a suavemente e da ponta de seus dedos saiu uma forte luz branca, que os envolveu.
Nem Stella nem Jullie sabiam se o brilho poderia ser visto pelos humanos da superfície, mas ambas duvidavam que eles reparassem, se fosse visível, ou que conseguissem enxergar alguma coisa, uma vez que a luz era muito forte; elas mesmas mal conseguiam ver o que se passava lá.
Aos poucos, o som do canto das sereias foi diminuindo, assim como o brilho. Quando tudo acabou, o oceano parecia estranhamente escuro. E, no centro da roda, não estava mais o tritão e a menina quase morta. Mas sim um tritão e uma sereia.
A ex-humana abriu os olhos voltando à consciência, soltou algumas bolhas de ar pela boca no que pareceu uma tosse ou quem sabe um sopro de vida preso à garganta.
Os humanos continuavam com o zunzunzum irritante de sempre, mas nem todos eram os porcalhões barulhentos quebradores de conchas. Talvez, ao contrário do que Jullie e Stella pensavam, os humanos não fossem vilões por completos, alguns ainda valiam à pena salvar, e certamente seriam salvos.
Como aquela menina. Afinal, se ela fosse tudo aquilo, ela teria deixado de existir durante a transformação, pois ao contrário do que diz a lenda, sereias nunca são cruéis.
Texto escrito com a linda da M. Deméter, dona do (my) Imaginary World, quase uma irmã e que juntou nossos pseudônimos sem problemas! <3
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Não gosto de me expor. Essa sou eu. Gosto da discrição, do silêncio da noite, e da ausência de pessoas. Apenas da ausência, não da solidão. Porque é nesses momentos que eu sinto a estranha necessidade de conversar com os que estão ao meu redor, e me exponho. Isso me faz rever meus próprios conceitos. No fim, chego a conclusão de que não vale a pena pensar no que nos forma. A metamorfose humana é contínua. Gosto de me expor, essa sou eu, e essa é minha realidade.
